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VOLTAIRE
APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia
“Cândido” é uma das obras mais conhecidas de Voltaire.
O texto contrapõe ingenuidade e esperteza, desprendimento e
ganância, caridade e egoísmo, delicadeza e violência, amor e ódio. Tudo
isso mesclado com discussões filosóficas sobre causas e efeitos, razão
suficiente, ética.
Como sempre Voltaire expõe suas concepções com fina ironia, sem
abandonar o sarcasmo de quando em vez. O romance, em todos e cada um
dos seus parágrafos, caracteriza-se como uma sátira às idéias de
Leibnitz.
Leibnitz afirmara, pelo menos assim entendeu Voltaire, que o mundo
é o melhor possível, que Deus não poderia ter construído outro e que
tudo corria às mil maravilhas.
Voltaire não podia partilhar dessa mesma visão otimista, suas
idéias tinham resultado em prisões e perseguições a tal ponto que, por
volta de 1753, já não podia fixar-se, sem risco, em lugar algum da
Europa.
Cândido foi expulso de onde morava, foi preso e torturado, perdeu
sua amada, seus melhores amigos; em todos os casos com requintes de
crueldade. Mas a cada um desses fatos, meditava sobre como explicar o
melhor dos mundos possíveis, sempre com deboche mais ou menos sutil.
Como é peculiar a todos os seus trabalhos,o filósofo também criticou acidamente os costumes, a cultura, as artes.
Sobre as relações entre sexos, uma passagem merece ser mencionada:
“Um dia, em que passeava nas proximidades do castelo, pelo pequeno
bosque a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o doutor
Pangloss que estava dando uma lição de física experimental à camareira
de sua mãe, moreninha muito bonita e dócil. Como a senhorita Cunegundes
tivesse grande inclinação para as ciências, observou, sem respirar, as
repetidas experiências de que foi testemunha; viu com toda a clareza a
razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e regressou toda
agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar sábia, e pensando que
bem poderia ela ser a razão suficiente do jovem Cândido, o qual também
podia ser a sua.”
Nem mesmo as falcatruas das manufaturas européias ficaram esquecidas:
“...levou-o para casa, limpou-o, deu-lhe pão e
cerveja, presenteou-o com dois florins, e até quis ensinar-lhe a
trabalhar na sua manufatura de tecidos da Pérsia fabricados na
Holanda.”
Sugestiva é a menção sobre a recompensa divina para o mal menor:
“Tínhamos um imame muito devoto e compassivo, que lhes pregou um belo sermão, persuadindo-os a que não nos matassem.
—
Cortai – disse ele – apenas uma nádega a cada uma dessas damas, e com
isso vos regalareis. Se for necessário mais, tereis outro tanto daqui a
alguns dias. Deus recompensará tão caridosa ação, e sereis socorridos.”
Não faltou a referência à relação entre exploradores e explorados, e à hipocrisia dos poderosos.
“Já estiveste então no Paraguai? – indagou Cândido.
—
É verdade. Servi de fâmulo no colégio de Assunção, e conheço o governo
dos Padres como conheço as ruas de Cádiz. É uma coisa admirável esse
governo. O reino já tem mais de trezentas léguas de diâmetro; é
dividido em trinta províncias. Os padres ali têm tudo, e o povo nada; é
a obra prima da razão e da justiça. Quanto a mim, não conheço nada mais
divino do que os Padres, que aqui fazem guerra ao rei de Espanha e ao
rei de Portugal, e que na Europa confessam esses reis; que aqui matam
espanhóis e em Madrid os mandam para o céu: isto me encanta.”
E com que graça se refere à simplicidade da riqueza e do luxo:
“Entraram numa casa muito simples, pois a porta era
apenas de prata e as salas modestamente revestidas de ouro, mas tudo
trabalhado com tanto gosto que nada ficavam a dever aos mais ricos
lambris. A antecâmara, na verdade, era incrustada somente de esmeraldas
e rubis; mas a harmonia do conjunto compensava de sobra essa extrema
simplicidade.”
O respeitabilíssimo Homero não escapou das farpas:
“Cândido, ao ver um Homero magnificamente encadernado, elogiou o ilustríssimo quanto ao seu bom gosto.
— Eis – disse ele – um livro que fazia as delícias do grande Pangloss, o maior filósofo da Alemanha.
—
Pois não faz as minhas – disse friamente Pococurante. – Fizeram-me
acreditar outrora que eu sentia prazer em lê-lo; mas essa repetição
contínua de combates que todos se assemelham, esses deuses que agem
sempre para nada fazer de decisivo, essa Helena que é o motivo da
guerra e que mal entra na peça; essa Tróia que cercam e não tomam, tudo
isso me causava um mortal aborrecimento. Perguntei a eruditos se eles
se aborreciam tanto quanto eu nessa leitura. Os que eram sinceros
confessaram-me que o livro lhes tombava das mãos, mas que sempre era
preciso tê-lo na biblioteca, como um monumento da Antigüidade, é como
essas moedas enferrujadas que não podem circular.”
Foi nesse romance que Voltaire escreveu uma de suas
mais célebres frases. Após ouvir uma breve dissertação sobre o perigo
das grandezas, que todos os acontecimentos estavam devidamente
encadeados no melhor dos mundos possíveis, que todo o sofrimento de
Cândido acabara por reverter em benefícios, Cândido, candidamente,
respondeu:
“— Tudo isso está bem dito... mas devemos cultivar nosso jardim.”
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